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Sechseläuten - Desfile infantil

Desfile das crianças no Sechseläuten em Zurique

Minha festa preferida aqui da cidade onde moro sempre foi o Sechseläuten. Esse desfile de cavaleiros com seus trajes medievais, distribuindo e recebendo flores dos que estão assitindo na calçada é uma demonstração de democracia e civilidade no mais alto nível, considerando-se que os que fazem parte do cortejo não são simples cidadãos, são membros de uma elite, pois fazem parte das chamadas corporações de ofícios, tão presentes em toda a história da Suíça. Os convidados para esse desfile são os expoentes da política, grandes empresários e banqueiros, além de artistas e outras personalidades de destaque da sociedade.

O nome significa “o toque de seis” e se origina de um costume medieval. De acordo com uma resolução de 1525, todos os anos após o equinócio em março, o horário de encerramento do trabalho passava das 17 para as 18 horas e essa mudança era anunciada ao tocar do sino da igreja Grossmünster. Esse antigo costume de primavera que se celebra em Zurique como uma grande festa popular goza de grande popularidade. Todos os anos, o Böögg - uma encarnação do inverno - é queimado em uma grande fogueira. De acordo com a crença popular, o ritual permite tirar conclusões sobre o próximo verão.

O desfile infantil no domingo é parte integrante do fim de semana Sechseläuten e está aberto a todas as crianças entre 5 e 15 anos da área de Zurique. As crianças não precisam pertencer a nenhuma corporação de ofício para participar.Todos os anos, cerca de 3.000 crianças, acompanhadas por 800 músicos de grupos de música juvenil da região de Zurique, participam do desfile. As crianças vestem figurinos ou trajes históricos. A ordem do cortejo corresponde a época histórica dos figurinos. Encerrando o desfile vem o grupo "Zurich cosmopolita" com crianças em seus trajes de culturas e religiões estrangeiras.

Apesar do grande número de brasileiros que vive em Zurique, apenas uma vez em 1994 um grupo de crianças brasileiras participou desse desfile. Desde que meus filhos eram pequenos sempre desejei que eles representassem o Brasil no Sechseläuten. Este ano tivemos o grande prazer e honra de marcharmos com nossas crianças, mostrando a nossa alegria e embelezando essa festa.

O Brasil com suas dimensões continentais e sua variedade cultural, não tem um traje típico marcante como outros países e esse foi o nosso primeiro desafio. Que traje representa melhor o país? Escolhemos o carimbó, uma tradição típica do Pará, que com sua profusão de flores combina com essa comemoração de primavera que temos aqui.

Assim que ultrapassamos o processo burocrático de inscrição e avaliação e o nosso grupo foi aceito, reunimos as crianças e iniciamos a confecção dos trajes e acessórios. A alegria de ver as crianças prontas para o desfile valeu a pena a trabalheira que deu para que tudo estivesse terminado a tempo. O grupo do Brasil contava com 27 crianças, todos filhos de brasileiros, onze meninos e dezeseis meninas com idade de cinco a onze anos. A emoção de sentir tanta simpatia e aplausos do público ao longo do percurso fez com que essas crianças tão pequenas marchassem os 3,4 km com entusiasmo visível.

Até agora só foram apresentados os aspectos organizacionais do desfile infantil e no entanto o impacto maior foi no aspecto emocional dos participantes. E nesse caso não só nas crianças, mas sobretudo nos pais. Desde o início enfatizei para as crianças os dois fatores principais do porque participar deste desfile. Por um lado as crianças tem que conhecer as origens dos pais, suas tradições e culturas, para entenderem sua própria origem e por outro participar e se integrar no país que nos acolhe, onde criamos nossos filhos, onde eles frequentam a escola. Ou seja ter orgulho de representar o Brasil e mostrar sua integração na sociedade local.

Para as mães a participação significou uma mensagem clara para a família do seu cônjuge estrangeiro: eu respeito e participo da sua cultura e tenho orgulho de onde venho. A sensação de se sentir parte integrante da sociedade que nos acolhe é uma coisa difícil de ser alcançada quando se é emigrante. Devido a barreira linguística muitas mães não participam ativamente na vida escolar e social dos seus filhos, o que causa constrangimento nas crianças ao considerar que seus pais não correspondem ao nível dos pais suíço.

Quero mencionar aqui o depoimento de uma mãe que me emocionou sobremaneira: “Minha filha viu um outro lado meu que ela não conhecia. Ela sempre me cobrava porque eu não participava da organização das festas do bairro ou da escola e eu lhe dizia que não me sentia confortável. No desfile ela me viu ajudando a arrumar as cestinhas, entregando os colarzinhos e ela me disse “voce é a melhor mãe do mundo”. Então além de te agradecer pelo empenho em realizar o desfile, lhe agradeço por esse momento entre mãe e filha, que nem preciso dizer o quanto foi importante”.

E foi assim que o grupo de crianças que representou o Brasil no famoso e prestigioso desfile do Sechseläuten mostrou a alegria, o entusiasmo e o orgulho do nosso povo. Agradeço de coração a todos que colaboraram para a realização desse sonho meu, que na realidade era um sonho nosso. Nos encontramos no próximo Sechseläuten.

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Ocirema Kukleta

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